domingo, 1 de abril de 2018

“Direita descomplexada”, “esquerda complexada” - o Brasil em tempos de reacionarismo


           Israel Souza[1]
O caráter conservador do Brasil é ponto pacífico entre muitos autores, das diversas ciências sociais e dos mais variados matizes ideológicos. Cada um a seu modo, tratam disso Gilberto Freyre (Casa-grande & senzala), Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil), Florestan Fernandes (A revolução burguesa no Brasil), Caio Prado Jr. (Evolução política do Brasil), Raymundo Faoro (Os donos do poder), Darcy Ribeiro (O povo brasileiro), para citar apenas alguns.
Momentos há, porém, em que atravessamos a fronteira do prosaico conservadorismo e avançamos em campos outros. Por vezes, avançamos no campo do progressismo, coisa rara. Por vezes, no do reacionarismo, coisa perigosíssima. A meu ver, é nesse campo que ora estamos avançando.
Ameaçando transformar a “questão social” em “questão policial” novamente, certo candidato à presidência segue em segundo lugar nas pesquisas de intenção de votos nestas eleições de 2018. Em que pesem as insanidades que fala, conta com o apoio de milhões e é recebido como herói em alguns lugares. Michel Temer decretou intervenção militar no Rio de Janeiro, reputando-a como “uma jogada de mestre”. Executaram Marielle Franco, ativista social e vereadora da cidade do Rio pelo Psol, e uns tantos comemoram o fato nas redes sociais. Enodaram seu nome com mentiras, jogaram-no na lama. A caravana do ex-presidente Lula foi atacada com pedras e balas.
Resumidamente, eis a atmosfera sob a qual vivemos ou tentamos viver. A olhos vistos, a disputa política vai ganhando dinâmica explosiva. Indisfarçavelmente, a luta de classes vai cedendo espaço à guerra de classes. Estatal e civil, a violência avulta, avança, desnuda. Parece confirmar-se a hipótese que levantei em meu último artigo. Estamos transitando da política da militarização para a militarização da política.
            Pavoneando-se, a direita se jacta de seus preconceitos, ódio e violência. Não se esconde. Expõe-se descomplexadamente, orgulhosa de si. Para ficar apenas em dois exemplos. Lembremos do “movimento” Escola sem Partido questionando juridicamente o critério que prevê a anulação das redações do ENEM que desrespeitem os direitos humanos, disseminando mensagens de ódio ou qualquer tipo de preconceito. Lembremos ainda de ruralistas, recentemente, sacando armas e dando de chicote em manifestantes pró-Lula no sul do país.
A situação da esquerda e de todos os que lutam pelas dignidade e emancipação humana é bem outra.  Procuram se encontrar, afinar seus discursos e estratégias de luta. Não raro, ativistas de direitos humanos têm que se justificar, assegurando que não defendem bandido. Os que lutam por direitos sociais se veem na obrigação, de quando em vez, de dizer que não são petistas. Acuados em seus espaços de trabalho, afrontados em seus ofício e saber, professores têm que provar que discutir temas sociais não é fazer doutrinação nem tampouco estar a serviço de um dado partido.
Embora forçada pelas circunstâncias, tanta justificativa não deixa de representar insegurança, uma espécie de “complexo”. De externo, o constrangimento se vai internalizando, atando, num só feixe, censura e autocensura.
Com efeito, o clima ideológico-moral é tão adverso que até parece que a luta por justiça social virou pecado, sinal de psicopatia, de “esquerdopatia”, como insinuam. Alguns querem mesmo é transformá-la em crime, interditando a cidadania questionadora, o exercício dos direitos políticos por outros meios além do voto.
Impossível caracterizar tal cenário como conservador. E quem assim o faz, além de incorrer em equívoco, julga mal o tamanho do perigo. Um momento assim, em que o humanismo mais pueril ofende, ameaça os dominantes e seus consortes, é melhor definido como reacionário. Não é conservação. É retrocesso!
A mistura de violência, moralismo e anti-intelectualismo mostra que o fascismo grassa em nosso meio. Ontem como hoje, na Europa como no Brasil, ele exibe seu anti-Iluminismo, exala seu obscurantismo, sua sanha assassina. E nosso país, que chegou mal e tardiamente à modernidade, agora a vê sendo proscrita, interditada mesmo em seus valores progressistas mínimos. Nossas luzes que nunca foram lá muito fortes começam a eclipsar, sufocadas sob as sombras desse neo-obscurantismo.
Que não reste dúvidas sobre o período que atravessamos. Não se trata de jargão ou mantra. Como a revolução, a reação fascista não se faz a partir de decretos. Ambas, a revolução e a reação, são resultado de um processo de acúmulo de forças e contradições em cuja manifestação, porém, já estão presentes como potência. Infelizmente, os sinais do fascismo são inequívocos. Não há como tergiversar quanto isso. Resta saber apenas até onde iremos nessa trilha.
Nesse contexto, seria desastroso centrar todos os esforços - ou a maioria deles - em eleições e candidaturas. Como ensinou Gramsci, a luta política se dá tanto no nível da “sociedade política” quanto no nível da “sociedade civil”. Não há motivos para privilegiar uma em detrimento da outra.
Ademais, depois do golpe de 2016, a maneira de fazer política no Brasil não será mais a mesma. A democracia já não é respeitada sequer em seus aspectos mais formais, mais inofensivos. Ela continua sendo um espetáculo, mas um espetáculo que, doravante, pode ser suspenso a qualquer momento.
Urge travar a luta de classes no âmbito da cultura, dos valores, da ideologia. Apenas os de baixo podem trazer configuração e luz novas a este obscuro quadro. E para isso é preciso des-anatematizar o ideal de justiça social e liberdade. É necessário que os que lutam por justiça não se sintam envergonhados, complexados, nem sejam envergonhados por isso. É preciso clareza e seguranças nessa luta. Em resumidas contas, é preciso não dar razão à desrazão.


[1] Cientista social, professor e pesquisador do Instituto Federal do Acre/Campus Cruzeiro do Sul, onde coordena os projetos de pesquisa Trabalho, Território e Política na Amazônia e Miséria Política no Brasil. Autor dos livros Democracia no Acre: notícias de uma ausência (PUBLIT: 2014) e Desenvolvimentismo na Amazônia: a farsa fascinante, a tragédia facínora (no prelo). E-mail: israelpolitica@gmail.com

A política da militarização e a militarização da política: horizonte de inseguranças e incertezas


Israel Souza[1]
            E nós, que tanto falávamos de “judicialização da política”, agora assistimos, absortos, a outro fenômeno, um fenômeno de dupla face: a política da militarização e a militarização da política.
A bem da verdade, o fenômeno não é novo. Com efeito, muitos são os autores, das mais diversas orientações teóricas, que ressaltam a relação entre política e força. Para não ir muito longe, pensemos em Nicolau Maquiavel, Thomas Hobbes, Karl Marx, Friedrich Engels, Lenin, Max Weber, Carl Schmitt, Giorgio Agamben. E por aí vai. A lista é enorme.
            Apenas para dar apenas dois exemplos. Refletindo conjuntamente sobre política, Estado e força/violência, Weber argumenta que “somente se pode, afinal, definir sociologicamente o Estado moderno por um meio específico que lhe é próprio como também a toda associação política: o da coação física”. E continua: “o Estado é aquela comunidade humana que, dentro de determinado território (...), reclama para si (com êxito) o monopólio da coação física legítima (...)”. E para efeitos de sínteses, lembremos a célebre frase de Carl von Clausewitz: "A guerra é a continuação da política por outros meios".
Baseando-se nos ensinamentos de Maquiavel e Marx, Gramsci forja uma teoria política mais refinada. Sem descuidar do elemento da coação, indispensável em qualquer forma de domínio, o autor ressalta a importância do consenso. Tratando do Estado moderno e das relações políticas sob o capitalismo, ressalta que o domínio é exercido através dessas duas estratégias (ou meios) que, numa relação dialética, formam um par a um só tempo complementar e tenso: hegemonia e ditadura.
A hegemonia diz respeito à construção e à manutenção do domínio pela via do consenso, do convencimento, das ideias, dos valores, da cultura e etc. Trata-se da dimensão ideológica do domínio ou, para dizer com Bourdieu, da “dominação simbólica”. Através dela, a classe dominante visa à “domesticação dos espíritos” da classe dominada. Assim, condicionam-se as formas de a classe dominada perceber, interpretar e se posicionar diante da realidade social e dos que nela prevalecem.
Além de dar a aparência de legitimidade ao domínio da classe dominante, a hegemonia é o meio ordinário de seu domínio, isto é, o mais usado na maior parte do tempo. Por meio dele, a classe dominante “engendra” na classe dominada a indiferença e a resignação. Pode até conseguir o apoio ativo dela para seus projetos e interesses. Dessa forma, o domínio a que está submetida a classe dominada é menos sentido ou mesmo não é sentido como tal, pois a hegemonia tende a “naturalizá-lo”, dando a ele a aparência de inexorável.   
Ocorre que, sozinha, a hegemonia é insuficiente para garantir os interesses da classe dominante. Por uma questão de garantia, então, esta pode recorrer à ditadura. Como aqui entendida, esta diz respeito ao uso da coação, da força, da violência, e não necessariamente a uma forma de governo. Sua base material (seu sujeito) é o Estado, também conhecido como sociedade política ou governo. Este exerce poder de força através de seus aparelhos como burocracia, judiciário, polícia, exército, a fim de garantir a manutenção da ordem nos moldes mais favoráveis à classe dominante.
O uso de tal recurso serve tanto para reprimir como para desestimular atos de insubordinação e insurgência por parte da classe dominada, dando certa solidez ao domínio “dos de cima” sobre “os de baixo”. Por isso, a classe dominante recorre sempre a ele, variando, segundo as circunstâncias, somente as formas e a intensidade de seu uso.
 Nisso assentamos a afirmação de que a “política da militarização” é uma das formas que o uso da violência assume nas relações de domínio e cuja intensidade varia segundo as circunstâncias. Importa melhor explicar essa parte última.
A política da militarização é uma constante nas relações de domínio. Como um dos recursos da ditadura, ela coexiste com os elementos da hegemonia, pois, como dissemos alhures, ditadura e hegemonia formam um par tenso e complementar. Mas, em tempos ordinários, é usada em baixa intensidade, pontualmente, para reprimir uma greve ou manifestação, para desestimular revoltosos ou coisa que o valha.
Apenas em tempos de instabilidade ela é usada em grande intensidade, desabridamente. Em momentos assim, dependendo da força que ameaça o domínio dos de cima, a política da militarização pode ceder espaço à “militarização da política”. É quando a ditadura pode deixar de ser um apenas um meio de domínio e se tornar uma forma de governo.
Por paradoxal que possa parecer, nesse caso, o uso da força é sinal de fraqueza. Para dizer com o grande poeta do Rock Rural, nessas circunstâncias, “Toda força bruta representa nada mais do que um sintoma de fraqueza” (Zé Geraldo).
Em condição assim, em que os elementos hegemônicos (consenso, convencimento etc.) perdem espaço para os elementos coativos (coerção, violência etc.), a classe dominante só consegue manter a ordem - ou pelo menos se lança em tal empresa, pois não é certo que ela o consiga - desprezando as aparências democráticas em que se oculta seu domínio, agora desnudo por força das circunstâncias.
Isto posto, voltemos à realidade brasileira. Desde 2013, ficou clara a intenção de a classe dominante tomar do PT a função de representar e efetivar seus interesses. Em 2016, deu um golpe. Tomou a presidência de Dilma. Passou a implementar por si mesma, em doses cavalares, aquilo que o PT administrava com relativa moderação.
Todavia, por desgastadas que estivessem as forças petistas, aquelas que as sucederam na condução da política não conseguiram apoio popular, mesmo contando com o apoio massivo da grande imprensa e do judiciário que, quando não as apoia ativamente, pelo menos, não lhes cria obstáculo.
Ante a insuficiência dos meios hegemônicos, resta-lhes recorrer aos ditatoriais. Eis que, assim, chegamos ao decreto de intervenção militar no Rio de Janeiro. Eis que, assim, uns personagens citados naquele célebre áudio de Jucá, enfim, aparecem na cena do golpe (“grande acordo”, era como Jucá dizia no áudio). O congresso já havia aparecido. O judiciário também. Agora foi a vez dos militares. E veio a intervenção no Rio de Janeiro.
É óbvio que para entender a intervenção no Rio é preciso considerar outros fatores. Entre eles, destaco: o desastre dos governos local e municipal dali (Rio); a criminalidade, a violência e a insegurança reinantes, ali como noutras partes do país; a inabilidade política e a irresponsabilidade de Temer e consortes; a tentativa de minar a força eleitoral de Bolsonaro (que vem figurando em segundo lugar em diversas pesquisas de intenção de voto para presidente), “roubando seu discurso”, ocupando seu reduto eleitoral (Rio), jogando com o reacionarismo de seus eleitores.
Mostrando os interesses políticos por trás da intervenção, Temer disse que ela foi “uma jogada de mestre”. Como era de esperar, ele não tem ideia do que faz. Em verdade, a intervenção pode ter sido um passo bastante perigoso, marcando a transição da política da militarização para a militarização da política. Não é fácil dar um passo desses e voltar atrás depois, como se nada tivesse acontecido.
Os militares aceitarão perder, sem mais nem menos, os espaços e a visibilidade que ganharam? Difícil. Em caso de suspenderem a intervenção, aceitarão que coloquem em suas costas a culpa pelo fracasso? Impossível.
Ademais, cumpre considerar os efeitos disso para a população. Um representante dos militares já disse que precisam atuar sem medo de uma nova Comissão da verdade. Isso explicita seus intentos. Pretendem - pelo menos, uns setores deles - atuar livremente, sem medo de investigação. Isso coloca em risco bandidos e não-bandidos.
Agora, recentemente, ocorreu a execução de Marielle Franco (vereadora do Psol) e de Anderson Gomes seu motorista. Ela era uma voz forte e combativa na denúncia da desregrada atuação policial no Rio. Não são poucos os que têm levantado a hipótese de que há envolvimento da polícia em sua execução.
Em protesto contra o assassinato da vereadora e de seu motorista, manifestações ocorreram em diversas partes do país. E imprensa internacional repercutiu de modo bastante negativo a notícia. Como sempre, a direita e a bancada da bala - seu braço político-parlamentar - reagiu, acusando e debochando dos que “defendem bandidos”.
            Certamente, o fato há de abalar a já pouca credibilidade de Temer e seu governo. Mas o problema não é só esse. Isso aumentará ainda mais a instabilidade política do país. Os conflitos tendem a se acirrar ainda mais, ganhando contornos e traços mais explosivos, violentos.     
Num país em que a repressão a grevistas e manifestantes está se tornando comum, em que o assassinato de ativistas políticos e defensores de direitos é rotina e é até comemorado em redes sociais, isso não pode ser coisa boa. Carente de legitimidade suficiente para fazer seus interesses prevalecerem consensualmente, a classe dominante recorre destrambelhadamente à violência.
A cidadania ativa dos que questionam é transformada em crime. A repressão - e até as execuções - deixa de ser pontual e passa a ser ostensiva, desabrida. Já não há preocupação sequer com os elementos formais da democracia. Da violência nas ruas à tomada da presidência de Dilma é o que vemos.
A “judicialização da política”, que já representava, por si só, um golpe em nossa frágil democracia, já não bastava. Era preciso mais. A simples política da militarização também já não era suficiente. Era preciso mais. Insegura de seu domínio, a classe dominante, atabalhoada, recorre ao uso da violência e o faz de modo cada vez mais intensivo e extensivo.
A nosso ver, os sinais de que estamos transitando da política da militarização para a militarização da política são mais que claros. Resta saber até onde iremos. Em cenário como esse, aquilo que Temer chamou “jogada de mestre” pode se transformar num suicídio político. O perigo de os  homens de farda sucederem os homens de terno não é remoto.  


[1] Cientista social, professor e pesquisador do Instituto Federal do Acre/Campus Cruzeiro do Sul, onde coordena os projetos de pesquisa Trabalho, Território e Política na Amazônia e Miséria Política no Brasil. Autor dos livros Democracia no Acre: notícias de uma ausência (PUBLIT: 2014) e Desenvolvimentismo na Amazônia: a farsa fascinante, a tragédia facínora (no prelo). E-mail: israelpolitica@gmail.com

A política da antipolítica e seus perigos


Israel Souza[1]
            As escolas de samba Paraíso do Tuiuti, Beija-Flor e Mangueira fizeram história e marcaram indelevelmente o carnaval de 2018. A primeira abordou as mais variadas formas que a escravidão assumiu ao longo da história brasileira. Mostrando que as classes dominantes estão em geral ligadas ao Estado e ao governo, mas não são idênticas a eles, da escravidão dos negros à reforma trabalhista, a Paraíso do Tuiuti denunciou, acida e poeticamente, a elite brasileira e Temer, o “Vampirão Neoliberalista”. Aquela imagem ficará na minha retina por vários anos...
A Beija-Flor centrou fogo nas peripécias de Sérgio Cabral, ex-governador do estado do Rio de Janeiro, responsável por uma crise monumental e hoje preso, condenado por corrupção. Por sua vez, a Mangueira voltou sua artilharia contra o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. Justificando-se na crise por que passam as finanças da cidade, mas incontendo seu preconceito religioso contra o carnaval, este fez graúdos cortes nos repasses a serem destinados à festa popular. Notícias falam de 50% de corte nos repasses.
Ao trazerem a crítica social para a avenida, essas escolas de samba mostraram que política se faz dos mais diversos modos e nos mais variados tempos e lugares. Nem a imprensa conservadora pôde contornar o fato. E assim o clamor dos “condenados desta terra” subiu, chegando mesmo aos céus da indiferença.
Isso foi, a um só tempo, um deleite e um delito. Um deleite para os de baixo que esperavam suas angústias serem expressas e suas bandeiras, levantadas, sobretudo, num palco em que se deita tanta luz. Num momento em que rareia o pão, o “circo” ganha ainda mais importância. Desta vez, porém, o espetáculo que este apresentou não agradou os de cima. Por isso, para estes e seus consortes, isso foi um delito.
Coisas assim, tão distintas, não deveriam se misturar, dizem. O que estes manifestam dessa forma é, conscientemente ou não, uma tentativa de interditar e conformar a política e algo que faz parte essencial dela: o dissenso. Procuram reduzir a política e o dissenso à sua dimensão mais pobre, formal, domesticável, a fim de evitar ações constrangedoras e perigosas. E ali, na avenida, o dissenso apareceu, forte, vibrante, encantador, livre, inesperado. Levou medo aos de cima.
É a essa tática de interdição e conformação da política e do dissenso que chamamos de política da antipolítica. A fim de evitar equívoco, importa dizer que a política da antipolítica não é a negação pura e simples da política. É, antes de tudo, a afirmação de um tipo de política (a que convém aos de cima) em detrimento de outras (as que não convêm aos de cima, mas convêm aos de baixo). Eis a razão de falarmos de interdição e conformação.
Olhando por este prisma, o caráter autoritário dessa tática é inegável. Entretanto, nessa quadra histórica de crise em que são maculados grandes partidos e figurões, ela tem sido utilizada e sustentada, nos mais variados níveis, por figuras que já mostram seus interesses nas eleições deste ano. Alguns exemplos para ilustrar.
Apoiado por setores do financismo e do empresariado, Henrique Meireles (atual ministro da fazenda) se apresenta como alguém que representa a suposta virtude do mercado contra os vícios do Estado e da política. Há alguns dias, em propaganda partidária, disse que é preciso não ceder à tentação “populista” (mote com o qual desqualificam e desprezam políticas sociais voltadas aos de baixo) e que é necessário continuar com as reformas (mote com o qual defendem e sacralizam a reorientação das políticas unicamente para favorecimento dos de cima), por mais amargas estas que sejam.
Do mesmo modo como os de João Doria (prefeito de São Paulo), o vocabulário e o perfil gerencial-mercadológico de Meireles servem para desqualificar certo tipo de política e afirmar outro. Interdição e conformação.
Com poucas variações, Luciano Huck segue o mesmo estilo. A mais, ele traz a figura de bom marido e pai de família, do jovem apresentador carismático que ajuda pessoas sem muitas condições a reformar suas casas e carros. É um sujeito que se apresenta como alguém de “fora da política” que, por força de seus valores e visão de mundo, negaria a política tal como ela se encontra (degenerada em corrupção) e daria a ela outra forma (com virtudes, sem conflitos, sem corrupção).
Bolsonaro é outro a usar desta tática. Apresentando-se como homem honesto e de pulso firme, o moralismo é o ponto central de sua propaganda. Mesmo estando há quase três décadas na função de parlamentar, agora se coloca como alguém que nada tem com a política do jeito como ela está e que, com seus valores morais, há de negá-la e dar a ela outra forma.
A política da antipolítica também se faz presente em terras acreanas. Nesses dias, Rio Branco foi duramente castigada por uma forte chuva. Em poucas horas, choveu 277,4 milímetros, quase o esperado para um mês (280 milímetros). Inúmeros pontos da capital ficaram alagados.
As críticas a Marcus Alexandre, prefeito da cidade e pré-candidato a governador do estado do Acre pelo PT, não se fizeram esperar. Seus defensores tiveram que reagir. Como pode, aproveitarem da dor dos outros para fazer politicagem?, argumentavam em forma de pergunta.
Obviamente que a culpa pela drenagem precária não pode ser atribuída, sem mais nem menos, ao atual prefeito. Mas as críticas têm sua razão de ser. Afinal, já faz quase duas décadas seu grupo político dirige o Estado e fez inúmeros empréstimos para - dizem - levar estruturas aonde falta estrutura e para reestruturar o que o tempo e o desenvolvimento tornaram inadequado. No mesmo sentido, vale frisar que já conta mais de uma década, ainda sob o governo Binho, que disseram que iam fazer do Acre o “melhor lugar para se viver na Amazônia”.
Ora, o tempo que este grupo já está à frente do governo e da prefeitura, os empréstimos que fez e o que prometeu mais que justificam as críticas. É certo que há, por parte de setores da oposição, o claro objetivo eleitoreiro - como há, igualmente, naquelas fotos para que o prefeito fez pose ajudando os atingidos pela chuva. Daí a tratar toda crítica como “politicagem” é, no mínimo, um despropósito.
Inegavelmente, há aí a tentativa de interdição e conformação da política e do dissenso. Como nos casos discutidos acima, neste caso específico há também um misto de moralismo e personalismo. Explícito, o autoritarismo é corolário mais que necessário disso tudo. Podem até conceber que as massas façam política. Mas não como protagonistas. Não quando e como querem. Apenas nos termos que eles - os de cima, os que se julgam seus senhores - possam referendar.    
Nesse momento de crise e de apatia, o desserviço político desse tipo de comportamento é gigantesco. Por isso, impõe-se continuar cantando e fazendo valer no dia-a-dia, nos mais diversos tempos e lugares, das mais variadas formas, o samba enredo: “Não sou escravo de nenhum senhor...”  

NÃO ESQUECER DE TRATAR DE MARINA NESSES TEXTO, FAZENDO REFERÊNCIA A SUA RELAÇÃO COM O AGORA, GRUPO POLITICO DE HULK, E A SEU APELO A PACIFICAR/UNIR O PAÍS.


[1] Cientista político, professor e pesquisador do Instituto Federal do Acre/Campus Cruzeiro do Sul, onde coordena os projetos de pesquisa Trabalho, Território e Política na Amazônia e Miséria Política no Brasil. Autor dos livros Democracia no Acre: notícias de uma ausência (PUBLIT: 2014) e Desenvolvimentismo na Amazônia: a farsa fascinante, a tragédia facínora (no prelo). E-mail: israelpolitica@gmail.com

Márcio Bittar e o parasitismo político no Acre


Israel Souza[1]
            Faz uns dias, circula em grupos de Whatsapp um áudio de Márcio Bittar. Seu conteúdo é tão interessante que findou por ganhar as páginas dos jornais locais.
            No geral, a divulgação e as análises dedicadas ao áudio enfocaram o comentário sobre Gladson Cameli. Diz “Gladson não é nem de perto o candidato que eu gostaria de ter”. De nossa parte, consideramos compreensível, mas um tanto forçada a tentativa de criar abalo na relação de ambos somente com base nesse comentário.   
            A nosso ver, as partes mais eloquentes e contundentes do áudio dizem respeito ao próprio Márcio Bittar. São as partes em que ele se refere a Temer e às contrarreformas que ele vem defendendo e efetivando: a trabalhista e a previdenciária. Embora reconheça Temer como “todo enrolado”, diz que as contrarreformas que ele vem implementando são importantes para o Brasil e que está torcendo por elas.
De modo simples. O homem do áudio, futuro candidato ao Senado pela oposição no Acre, coloca-se como partidário de Temer e defensor de suas contrarreformas. E assume tal posicionamento com uma franqueza e um entusiasmo dignos de nota.
Por isso, o áudio aqui referido pode ser considerado como uma espécie de apresentação e de declaração de intenções. Por ele, podemos ter uma ideia do que esperar de um possível futuro senador Márcio Bittar.       
No áudio, Bittar afirma que “a reforma trabalhista foi fundamental, um marco no Brasil”, “acabou com a legislação fascista”. Em suma, Temer, o “todo enrolado”, teria, segundo ele, “modernizado as leis trabalhistas”.
Que ninguém se engane com tais palavras. Bittar não manifesta desprezo pela antiga legislação trabalhista por ela ser “fascista” (como diz). E, sim, por ela conceder direitos e garantias ao trabalhador. O problema seria, então, não seu caráter supostamente fascista, mas sua dimensão popular, social.
Por isso, é que ele chama de “modernização das leis trabalhistas” o ato de desamparar juridicamente os trabalhadores e desequilibrar, grandemente, em favor dos patrões as relações trabalhistas.
Com efeito, o que ele chama de “modernização” colocou o trabalhador brasileiro numa condição de semiescravidão. Da noite para o dia, trabalhadores tiveram seus salários reduzidos a menos da metade. Demissão em massa ocorrendo em diversas latitudes do país. Trabalhadores que, ao recorrerem à justiça do trabalho, perderam causas e - pior! - tiveram que arcar com os custos do processo.
Portanto, do ponto de vista dos trabalhadores, não há progresso nessa “modernização”, e sim retrocesso. E, se Bittar considera tudo isso positivo, é porque assume, como seus, o ponto de vista e os interesses dos patrões.     
Ainda no áudio, Bittar diz estar torcendo pela reforma da previdência. Neste ponto, fala, com alguma razão, de uns privilegiados que ganham muito e se aposentam cedo. Entretanto, diga-se de passagem, que nem Temer nem o Congresso mostra disposição para enfrentar os verdadeiros privilegiados. No geral, esses são usados discursivamente apenas para inflamar a população e arrancar dela a aquiescência quanto à reforma.
Ora, como é consabido, a CPI do Senado já mostrou que o alegado déficit da previdência é uma farsa e que a reforma, fundamentalmente, visa a 1) liberar ainda mais o Estado de compromissos sociais com os de baixo; 2) fazer com que uns trabalhadores sejam obrigados a recorrer aos bancos a fim de alimentá-los com planos de previdência privada e que 3) outros trabalhadores morram de trabalhar, sem nenhuma chance de aproveitar a aposentadoria com qual contribuíram por toda uma vida.
No intuito de dar sustentação a seu posicionamento a respeito da reforma da previdência, Bittar alega ter 54 anos, que não tem aposentadoria nem pensão e que não está pensando em parar de trabalhar.
Por vezes, achei essa parte bastante engraçada. Por vezes, achei despropositada. Ora, o que sabemos do “trabalho” de Bittar é que, eleição após eleição, ele chega ao Acre para disputar cargos eletivos. Depois some. Então, temos notícias de que ele está atuando em outro estado, em cargos de confiança.
Como professor (uma das categorias criticadas no áudio), lido diariamente com centenas de alunos. Dias há em que saio de casa às 6 da manhã e só volto às 6 da tarde. Preparo aulas e provas e trabalhos aos sábados, domingos e feriados. Como pesquisador, não raro, meu tempo de trabalho se confunde como meu tempo de descanso. Nesse ritmo, o vigor e a saúde se desgastam com relativa rapidez. Todavia, sou capaz de afirmar que, com um “trabalho” igual ao do Bittar, provavelmente eu chegasse aos 100 anos dançando lambada e jogando capoeira.
Para ser ainda mais claro. O que sabemos do trabalho de Bittar é que ele disputa eleições. E que, no geral, vem ao estado, de tempos em tempos, basicamente para isso. Disputar eleições.
Quando por aqui está, nesse “trabalho”, sempre encontra tempo para escantear correligionários, forjando golpes dentro dos mais diversos partidos por onde passa. Sintomáticas a esse respeito são suas relações com Bocalom e Major Rocha. Não é por acaso que Bittar troca de partido como quem troca de roupa. 
Isso mostra que, mais que um programa partidário, ele tem sempre em mente um programa pessoal. A essa altura, fica claro que sua afinidade com Temer não se restringe ao apoio que dão às reformas que atacam os trabalhadores e favorecem os patrões. Ambos, Temer e Bittar, também gostam de golpear seus correligionários.
Termino fazendo um desafio a Bittar. Se ele está realmente certo de suas posições, que ele, com a mesma franqueza do áudio, as assuma em sua campanha, em suas propagandas eleitorais. Apoiar um presidente ilegítimo e impopular diz muito sobre Bittar. Apoiar um candidato ao senado como Bittar diz muito sobre a oposição.
No mais, fica aqui registrado todo meu respeito, solidariedade e apoio aos trabalhadores. Igualmente fica aqui todo meu desprezo pelos parasitas políticos. Aos inimigos do povo, guerra sem trégua.


[1] Cientista político, professor e pesquisador do Instituto Federal do Acre/Campus Cruzeiro do Sul, onde coordena os projetos de pesquisa Trabalho, Território e Política na Amazônia e Miséria Política no Brasil. Autor dos livros Democracia no Acre: notícias de uma ausência (PUBLIT: 2014) e Desenvolvimentismo na Amazônia: a farsa fascinante, a tragédia facínora (no prelo). E-mail: israelpolitica@gmail.com

Aquém e além da lulolatria - para uma retomada consciente das lutas de classes no Brasil


           Israel Souza[1]
            Como fora previsto por muitos, a condenação do ex-presidente Lula foi mantida em segunda instância. Não apenas isso. Arredondando a conta, sua pena foi aumentada de 9 para 12 anos. A justiça determinou, ainda, a apreensão de seu passaporte, impedindo-o de viajar ao exterior. Esse é um fato carregado de grande constrangimento moral para o ex-presidente, além de limitar o eco de sua voz fora do país.
Pelo ângulo das lutas de classes, esse quadro sinaliza que a classe dominante - ora centrando fogo em Lula, mas mirando muito mais - não há de parar por aí. Mantidas as coisas como estão, tudo indica que a condenação será mantida em última instância e que, como candidato, Lula estará fora da próxima disputa eleitoral, pelo menos.
Por outro lado, é mais que razoável afirmar que dificilmente Lula conseguirá transferir, in totus, seus votos e força política a outro candidato de sua escolha. As eleições de Dilma e seus governos são exemplares a este respeito. Alimentada ao longo de décadas com um misto de desespero e empáfia, a lulolatria, agora sem Lula no páreo, de força, virou fraqueza. Neste panteão de um só deus, não há outro a quem dirigir preces e em quem depositar esperanças. Por isso, acredito eu, ao mostrar a possibilidade de outras tantas, a obstrução desta via pode ser salutar.      
Mais até do que no momento do impedimento de Dilma, agora o próprio Lula e o PT sentem os impactos negativos de terem cooptado lideranças, domesticado movimentos sociais e deseducado as massas para a luta política. Com efeito, mesmo neste momento em que retomam certo radicalismo para garantir sua sobrevivência é possível constatar a manipulação das massas e a concepção estreita de política com que lidam.
É o que se verifica em seus slogans (recuso-me a tratar tais como palavras de ordem), como, por exemplo, “Eleições sem Lula é fraude”, “Em defesa da democracia e de Lula”, “Com Lula e com o povo até a vitória em outubro”, “Lula vale a luta” etc.
Vê-se que tudo se passa como a se a democracia - e mesmo a política - fosse eleições e que estas só teriam sentido e legitimidade se se pudesse votar em Lula, sol que põe tudo o mais a orbitar em torno de si, deus, princípio e fim.
Ciente do petismo e do antipetismo que grassam nesses dias, importa frisar que não se trata aqui de engrossar o coro dos contentes com a condenação do ex-presidente, o coro da direita tradicional e dos fascistas de plantão.
Sem ignorar o mérito jurídico da questão mas também sem me circunscrever a ele como a círculo mágico, é mais que patente a dimensão política de seu processo e condenação - como patente ficara, antes, a dimensão política do impedimento de Dilma. Num caso e noutro, à luz das lutas de classes, direito e política se con-fundem, tornando impossível uma distinção clara e inequívoca entre ambos. No âmbito desta con-fusão, coube à força o peso decisório.
O que está em jogo é mais que o Lula. É a esquerda. É a Constituição que, ainda que de maneira um tanto simbólica, destaca a solidariedade como elemento indispensável da cidadania. É o ideal de justiça social. É a existência e a legitimidade de políticas sociais, substantivas, universais.  É a cidadania ativa como meio legítimo e eficaz de indicar e decidir os rumos do país. É tudo isso e muito mais. Inegavelmente.   
Neste sentido, é imperativo denunciar e combater, por todos os meios necessários, as injustiças que Lula sofreu e possa sofrer. E, exatamente por estar em jogo mais que o ex-presidente, isso terá que ser com respeito e solidariedade. Jamais como veneração. Idolatria, não!
Assim, é igualmente importante que seja explicitado e criticado contundentemente o papel que Lula e seu grupo desempenhou no processo que nos trouxe aqui. Suas opções, alianças e concessões, sobretudo. Eles não são vítimas inocentes.
Em verdade, será impossível valorizar seus acertos sem a capacidade de distingui-los dos erros. Afinal, como ignorar que a busca da governabilidade e a crença na conciliação de classes contribuíram enormemente para isso tudo? Como esquecer que Dilma, já sentindo o cerco se fechar contra ela, optou por continuar propondo contrarreformas e fazendo concessões perigosas aos golpistas, em vez de se aproximar das forças populares?
Em tal tarefa, é fundamental romper com o maniqueísmo que lulistas e consortes ajudaram a consolidar. Falo daquele diapasão que usam para tudo afinar segundo as diretivas petistas. Aqueles que desafinam e manifestam críticas, por justas que sejam, são classificados como direitistas, fascistas[2].
Lamentavelmente, esse foi o complemento petista ao maniqueísmo que a direita tradicional criou, tratando pejorativamente como petistas todos aqueles que, pertencendo ou não ao PT, lutam por justiça social e, no amplo horizonte histórico, pela emancipação humana.
Um e outo grupo lançam desses maniqueísmos a fim de se blindar das críticas e deslegitimar, com suas respectivas críticas e bandeiras, os que a eles não se vergam.  
Os desafios que se impõem à classe trabalhadora são muitos e grandes. Para fazer referência a Gramsci, digo que, para enfrentá-los adequadamente, é necessário pensar a partir da grande política, das lutas de classes, das transformações econômico-político-sociais, da revolução, e não apenas da pequena política, das lutas partidárias, dos messias, das eleições, das reformas...
Em todo o mundo, os desdobramentos da crise estrutural do capital mostram quão pernicioso é o fetichismo em torno da democracia e dos partidos. Os tempos são outros. Até as liberdades formais estão sendo suprimidas, sistematicamente.
O Brasil não foge à regra neste cenário de exceção. Aqui, os ataques às formalidades e procedimentalidades da democracia e do direito denunciam a falência das alternativas messiânicas, partidárias e eleitoreiras. O Estado democrático de direito mostra, explicitamente, sua natureza classista. E, como tal, ela é antidemocrática e de direita!    
Aos que nunca idolatraram Lula - símbolo da luta social, concordemos ou não -, sugiro, que aí se detenham, que fiquem aquém disso. Busquem outros caminhos e práticas. Aos que o idolatram, recomendo, é hora de ver, por trás do ídolo/mito, o homem e, mais que o homem, as classes.
             


[1] Cientista político, professor e pesquisador do Instituto Federal do Acre/Campus Cruzeiro do Sul, onde coordena os projetos de pesquisa Trabalho, Território e Política na Amazônia e Miséria Política no Brasil. Autor dos livros Democracia no Acre: notícias de uma ausência (PUBLIT: 2014) e Desenvolvimentismo na Amazônia: a farsa fascinante, a tragédia facínora (no prelo). E-mail: israelpolitica@gmail.com
[2] Eu mesmo já fui chamado de fascista porque me recusei a participar de um evento coordenado por forças petistas. Como de costume por essas bandas - creio que em outras também -, embora tratasse de um tema relevante, o evento fora organizado como palanque para um parlamentar que, sempre que requisitado pelo partido, votava contra os trabalhadores.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Ser feliz e deixar ser feliz: a “homofobia” e os princípios da autoridade e da alteridade

Israel Souza[1]
            Toda intolerância se nutre, principalmente, da ignorância e da arrogância. O intolerante é aquele se fecha em suas opiniões e valores. Age com a soberba daqueles que se creem donos da verdade, e hostiliza quem é e pensa diferente. Antes de tudo, orienta-se pelo “princípio da autoridade”, e não pelo princípio da alteridade”. Procura sempre se impor aos outros, e nunca se colocar no lugar dos outros, olhar as coisas de outro ponto de vista.
            Um tipo de intolerância que tem crescida entre nós é a “homofobia”. A palavra não é muito acertada. Fobia diz respeito e um medo. Mas o que vemos é um verdadeiro desprezo, ódio destilado contra aqueles/as que têm uma condição (ou opção) sexual diferente.
Já ouvimos falar de hidrofobia e claustrofobia. Entretanto, nunca ouvimos falar de alguém que, padecendo de tais males, tenha tentado exterminar a água ou o ambiente fechado em que se encontra. Por isso, devemos ter clareza: diferentemente do que sugere o nome, “homofobia” não é medo ou não apenas medo. É, sobretudo, ódio, desprezo. Muitos são os que já foram agredidos ou assassinados em razão deste mal.
Como professor de sociologia, vem em quando, trato dos temas de violência e intolerância com meus alunos. Toda vez que a discussão se estende até “homofobia”, uns mostram compreensão e aceitação; outros, porém, dizem não aceitar.
Mesmo sendo professor, nessas ocasiões, não uso do “princípio da autoridade”, e sim do belo e necessário “ princípio da alteridade”. Nada imponho, e em tudo me esforço para que entendam que o amor e a felicidade só crescem à sombra da liberdade. Ninguém pode ditar a alguém como amar, quem amar e como ser feliz.
Em verdade, quem já encontrou seu amor e felicidade – ou está sinceramente empenhado em nessa busca – não tem tempo a perder com a vida alheia. Quem é verdadeiramente feliz não precisa da infelicidade dos outros. Ser feliz e deixar ser feliz. Eis uma simples e poderosa fórmula de combate às intolerâncias.    



[1] Autor dos livros Democracia no Acre: notícias de ausência (Publit: 2014) e Desenvolvimentismo na Amazônia: a farsa fascinante, a tragédia facínora (no prelo), também é professor e pesquisador do IFAC/Campus Cruzeiro do Sul, onde está dos projetos de pesquisa Miséria política no Brasil e Trabalho, Território e Política na Amazônia. Está à frente do Grupo de Pesquisa Trabalho, Território e Política na Amazônia – TRATEPAM.

domingo, 2 de abril de 2017

Farsa e tragédia na política brasileira

Israel Souza[1]
Assegurar a aparência de legitimidade ao golpe dado em Dilma/PT, com o fito de convencer que a ordem constitucional fora mantida e evitar distúrbios sociais. Efetivar, célere e eficazmente, contrarreformas há tempos acalentadas por vários setores da burguesia nacional e internacional. Eis a dupla missão que alçou Temer (PMDB) à presidência do Brasil e que hoje pesa sobre sua cabeça como uma espada de Dâmocles, condicionando sua permanência no cargo.
A primeira condição foi conseguida com relativo êxito. A esta altura, não conta mais. O golpe já completou seu primeiro aniversário. Ainda que bradando em contrário, muitos já aceitaram a irreversibilidade do fato. Entre estes está o próprio PT, que, mesmo denunciando o golpe, faz isso mais com o intuito de desgastar o adversário e alavancar a candidatura de Lula para as eleições de 2018 do que para reconduzir Dilma ao cargo usurpado.    
É o ponto segundo que, no momento, embaraça Temer, ameaçando-lhe seriamente a permanência no cargo de presidente. Não bastasse a impopularidade sua e de suas medidas, agora enfrenta outras, que, segundo consideramos, trazem consigo a possibilidade de que a história se repita entre nós, como farsa e tragédia a um só tempo.

Financiada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), pesquisa recentemente realizada pelo Ibope aponta que Temer tem 90% de rejeição. Segundo a mesma pesquisa, o número daqueles que consideram o governo como ruim ou péssimo subiu de 46% (em dezembro/2016) para 55% (em março/2017). O número daqueles que não confiam em Temer chega a consideráveis 79% (<http://www.correiodobrasil.com.br/pesquisa-temer-rejeicao-eleitores/> Acessado em 02/04/17). 41% dos entrevistados o consideraram pior que Dilma (<https://www.cartacapital.com.br/politica/temer-e-pior-que-dilma-para-41-mostra-pesquisa> Acessado em 02/04/17).
Como era de esperar pela política econômica adotada, a economia vai mal. A taxa de desemprego chegou a 13,5 milhões, atingindo o maior patamar desde 2012 (<http://g1.globo.com/economia/noticia/desemprego-fica-em-132-no-trimestre-terminado-em-fevereiro.ghtml> Acessado em 02/04/17). Para ser honesto, é necessário que se diga que esse é um feito que Temer comparte com governos anteriores ao seu, que adotaram o mesmo receituário neoliberal. Sob Dilma, os números da economia já não eram alentadores. Ela pagou alto preço por isso. Agora é a vez de seu sucessor.
            É assim, através do desgaste político, que Temer vai pagando o preço por assumir, de forma desabrida, uma agenda pró-capital, algo mais próximo do ideário-prática do PSDB do que do PMDB[2].
Convém salientar, no entanto, que, desde o início, Temer manifestou que não tinha pretensões eleitorais para 2018. Talvez intuindo, em alguma medida, as dificuldades que haveria de enfrentar. 2 nos de mandato. Era o máximo a que ele poderia aspirar.
            Diferentemente do que uns tantos supunham, não havia o que comemorar com isso. Esta opção (ou condição)[3] o deixava livre, sem hesitações diante da opinião pública em geral e dos de baixo em particular. Ou seja, desde o princípio, ele estava livre de algumas amarras que prendiam o governo Dilma, mesmo levando adiante e de modo mais agressivo ainda muitas das contrarreformas que este propunha.
A demonização do governo anterior, responsabilizado por todos os males que acometiam o país, reforçava a margem de liberdade de que dispunha. Entretanto, politicamente, Temer mostrou-se tão inábil quanto Dilma. Embora mais polida, sua oratória é tão - ou mais - desastrosa quanto a de sua antecessora. Vide, dentre outros, seu discurso em homenagem ao dia da mulher.
Numa coisa, porém, ele e seu grupo foram mais espertos que os petistas, que, mesmo sabendo que o grosso de seu apoio vinha das massas, optaram por encampar medidas antipopulares. O resultado foi o que vimos: desagradaram sua base sem agradar seus inimigos, a quem servilmente cortejavam.
De seu lado, Temer sabe muito bem qual é sua base. Sabe muito bem a quem agradar. Ao limitar os gastos sociais e liberar os gastos com juros, a “PEC do teto de gastos” deu-lhe fôlego ante a fração financeira da burguesia. Além do enfraquecimento dos sindicatos, a aprovação de terceirização irrestrita e tudo o que ela implica na perda de direitos por parte do trabalhador deu-lhe gás ante as frações comercial e industrial. A turma do agronegócio não foi esquecida. O governo desferiu, recentemente, forte ataque à FUNAI e, através de Serraglio (PMDB)[4], procura ainda limitar homologações de Terras Indígenas e a criação de áreas de conservação.
Ora, sua impopularidade se deve, largamente, a isso. É que para agradar seus apoiadores, ele tem que necessariamente desagradar às massas, aos trabalhadores. É atacando a estes que ele defende os seus. Não há meio termo. Ele sabe que não chegou à presidência para negociar ou se sensibilizar com demandas populares e trabalhistas. O tempo de que dispõe e a impopularidade e a ilegitimidade de que goza impõem a ele um ritmo ainda mais rápido e uma forma ainda mais truculenta, tanto na condução das matérias quanto no trato com os adversários.
Sua condição é tal que, se estagnar ou recuar em sua missão acima aludida, se desgasta; e, se avançar, também. Entretanto, uma facção do PMDB percebeu que, do jeito que as coisas andam, não apenas Temer há de se desgastar neste turbulento processo, que isso respingaria em todo o partido, criando obstáculos seríssimos para os que guardam pretensões nas eleições de 2018.
Para os que compõem esta facção, os interesses do partido não podem se restringir a tão curto e pouco promissor mandato. Renan Calheiros (PMDB) expressou isso com muita clareza. Sua frase “o PMDB não é o governo”, que circulou largamente pelas redes sociais num vídeo seu, patenteia esta compreensão e manifesta sua insatisfação com o rumo que as coisas estão tomando.
Ao que parece, o grupo político liderado pelo senador alagoano prefere sacrificar Temer, e não o partido. Convém frisar isso: a insatisfação não é contra as medidas de Temer e em favor dos trabalhadores. Trata-se simplesmente de uma manifestação em favor de setores do partido que não se acham contemplados nos atuais planos do governo.
Tal pode criar embaraços ainda maiores para Temer, já que sua permanência no cargo de presidente está diretamente relacionada à sua capacidade de efetivar, eficaz e celeremente, as contrarreformas ansiadas pelas classes dominantes. Isso agora está em xeque. E isso é coisa inaceitável para alguém com o ego e a vaidade de Temer.
Ás dificuldades vindas das ruas, somam-se agora as dificuldade vindas do Congresso, instituição fundamental para a implementação das medidas antipopulares e anti-trabalhistas que pretende levar adiante.
Nesse cenário, não podia ser diferente, pois, quanto mais exitoso for em servir seus apoiadores, mais insuflará as massas contra si e levantará insatisfação dos que, no PMDB, se veem prejudicados por sua condução. Dessa forma, contribui, ele mesmo, diretamente para abreviar o já breve mandato que ganhara por usurpação. Particularmente, não desconsideramos a possibilidade de que, por força das atuais circunstâncias, e não por conta de sua estatura politica abaixo da medíocre, Temer prove, como Dilma, o amargo sabor do que é ser um presidente descartável.
Por força da mesma lógica, a oposição vem crescendo à medida que ele vai se apequenando. De acordo com pesquisa de intenções de voto para eleições presidenciais 2018, realizada pelo Instituto MDA, Lula (PT) lidera nos primeiro e segundo turnos (<http://www.jb.com.br/pais/noticias/2017/02/15/pesquisa-cnt-mostra-lula-liderando-intencoes-de-voto-para-2018-no-1o-e-no-2o-turnos/> Acessado em 02/04/17). A liderança de Lula é sentida, sobretudo, no Nordeste, reduto eleitoral de Renan Calheiros.
Na imprensa, já circulam inúmeras matérias assegurando que Renan não apenas rompeu com Temer, mas que ensaia um alinhamento a Lula. Sem demora, já vários sites e blogs devotados à causa do petismo insinuam possível aliança entre Renan e Lula, sugerindo a seu modo a aliança PT-PMDB como segura saída para a atual crise.
Tal leitura, parece-nos, é no mínimo preocupante. Por um lado, reforça a complicada crença de que a saída é por “cima”, pela serena e pacífica via eleitoral. Assim sendo, as forças oposicionistas encabeçadas pelo PT não resistirão à tentação de alimentar as manifestações de rua que ora vão tomando conta do país, orientando-as segundo seus interesses eleitorais, como tantas e tantas vezes fizeram. Por outro, alimenta o messianismo em torno de Lula, um messias que, como vimos, costuma trazer entre seus seguidores o próprio Judas.
Há que se considerar seriamente esta possibilidade. Até agora, justamente ou injustamente, não conseguiram prender Lula ou torná-lo inelegível. As perversas medidas encampadas por Temer que fizeram as conquistas sociais retrocederem bem mais de um século, sua falta de carisma e habilidade política, no atual cenário, realçam sobremaneira a grandeza de Lula. Inúmeras são as pesquisas que o comprovam.
Talvez os que estão eufóricos com o cisma na base do governo e com a possível aliança Lula/PT-Renan/PMDB não saibam, mas, seguindo este caminho, estarão trabalhando para que a história se repita entre nós, como farsa e tragédia, cabendo à primeira encobrir e alimentar a segunda.



[1] Cientista Social, Mestre em Desenvolvimento Regional, professor e pesquisador do Instituto Federal do Acre-Campus Cruzeiro do Sul. E-mail: israelpolitica@gmail.com
[2] Nas atuais circunstâncias, é bastante cômodo para o PSDB que outro desempenhe esse papel e assuma todo o desgaste político que isso implica. Depois, poderá lançar candidato próprio e fingir que não tem relação nenhuma com as contrarreformas implementadas por outro governo. Por isso, na ação que corre no TSE que pede cassação da chapa Dilma/PT-Temer/PMDB, o PSDB tentou salvar Temer da perda do mandato (https://boainformacao.com.br/2017/04/por-que-o-psdb-quer-salvar-michel-temer-no-tse-99/).
[3] No calor do processo de impedimento de Dilma, uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Dizgoo, realizada através do portal IG, apontava que 83% dos entrevistados não queria Temer na presidência.
[4] Ministro da Justiça no governo Temer e um dos mais destacados representantes da bancada ruralista, braço político do agronegócio no Congresso brasileiro.